O debate sobre a saúde mental e o bem-estar emocional ganhou um aliado estratégico no ambiente corporativo: a Gestão de Riscos Psicossociais. O tema, que ainda enfrenta preconceito e resistência, hoje é central para a produtividade e a segurança jurídica das empresas. Segundo o médico psiquiatra Henrique Cassis Ribeiro Santos, diretor clínico do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec, o impacto do sofrimento psíquico vai muito além das emoções.

“O sofrimento mental machuca o cérebro”, resume o especialista.

De acordo com o psiquiatra, ao menos 10% da população é acometida por algum transtorno mental, como depressão, ansiedade, transtornos obsessivo-compulsivos, psicóticos, de humor e de personalidade. No ambiente de trabalho, esses números se traduzem em absenteísmo, presenteísmo e queda de desempenho. “Existe uma gama variada de transtornos que levam a um sofrimento muito importante. Muitas vezes, essa pessoa acaba marginalizada, excluída e vítima de preconceito”, afirma.

O Desafio dos Riscos Psicossociais na Rotina Corporativa

Com as atualizações nas normas regulamentadoras de segurança do trabalho — com destaque para a NR-1 (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais) —, as empresas passaram a ter a obrigação de olhar para os fatores psicossociais. Jornadas extensas, metas abusivas, falta de suporte técnico e assédio moral são gatilhos diretos para o adoecimento.

O médico alerta que um dos principais desafios está em reconhecer os sinais de alerta, especialmente quando o quadro não é grave a ponto de interromper totalmente a rotina do colaborador.

  • Funcionalidade Parcial: “Muitas pessoas mantêm uma funcionalidade parcial, mas com qualidade de vida muito abaixo do que poderiam ter”, observa Henrique.
  • Sinais de Alerta: A piora da funcionalidade, alterações do sono, dores físicas recorrentes, cansaço persistente e mudanças abruptas de comportamento devem ser encaradas pela liderança como sinais de alerta.
  • O Mito da ‘Vida Moderna’: “O problema é que isso muitas vezes é confundido apenas com o cansaço da vida moderna”, explica o psiquiatra. O desgaste gerado pelas exigências profissionais diárias é real, mas nem todo esgotamento é passageiro: muitas vezes, trata-se de um transtorno psiquiátrico em curso, como o Burnout.

Fatores Agravantes: Pós-Pandemia e Conectividade

Entre os quadros mais prevalentes atualmente estão os transtornos depressivos e ansiosos. A pandemia da Covid-19 deixou marcas profundas que ainda ecoam nos escritórios e fábricas. “Muitos transtornos se iniciaram durante a pandemia e se cronificaram. Ainda hoje recebo pacientes com quadros que começaram naquele período e não foram devidamente tratados”, relata.

Outro fator de impacto crescente, impulsionado pela cultura do “sempre conectado”, são as redes sociais, que atuam como estressores psíquicos ao expor realidades irreais e vidas idealizadas.

A Biologia do Sofrimento e o Papel das Organizações

Do ponto de vista biológico, o médico reforça que o sofrimento mental gera inflamação cerebral e alterações nas conexões do cérebro. Quanto mais tempo o transtorno permanece ativo e sem suporte, mais difícil é a recuperação.

Por isso, implementar a Avaliação Psicossocial e mapear os riscos na empresa não é apenas uma exigência legal, mas uma estratégia de preservação do capital humano. Promover um ambiente seguro envolve incentivar cuidados diários:

Pilares do Bem-Estar OcupacionalAções Práticas no Dia a Dia
Organização do TempoRespeito aos horários de descanso e desconexão de telas à noite.
Estímulo PositivoFortalecimento de vínculos sociais na equipe e feedback construtivo.
Saúde FísicaIncentivo à atividade física e pausas ativas durante a jornada.

Onde Buscar Ajuda

Para as lideranças e colaboradores que ainda veem a busca por ajuda como sinal de fraqueza, o psiquiatra é enfático: “A pessoa até pode continuar sendo funcional, mas vai viver aquém do que poderia. A vida passa muito rápido para ser vivida em sofrimento”.

Em Franca, a população conta com uma rede estruturada de atenção à saúde mental para encaminhamento de colaboradores que necessitam de suporte, incluindo a rede pública (UBSs, CAPS e ambulatórios) e a privada. O Hospital Psiquiátrico Allan Kardec atua como retaguarda para casos que exigem intervenções mais agudas.

“O sofrimento faz parte da vida, mas quando ele se torna contínuo e causa prejuízos no trabalho e nas relações, é hora de procurar ajuda. Cuidar da saúde mental no trabalho é, acima de tudo, cuidar da vida”, conclui o médico.