Em um país onde o rúgbi reina absoluto, o futebol americano se tornou um instrumento improvável — e poderoso — de evangelização. Foi em Belfast, na Irlanda do Norte, que os missionários Russell e Tori Minnick, da Junta de Missões Internacionais (IMB), encontraram no esporte uma nova forma de alcançar irlandeses para Cristo.
Enquanto observavam os filhos brincarem em um parque da cidade, o casal percebeu algo fora do roteiro local: um grupo de homens jogando futebol americano. Movido pela curiosidade, Russell se aproximou e iniciou uma conversa com Barry Keil, presidente de um dos times da cidade, o Belfast Trojans. O contato rendeu um café dias depois — e, pouco tempo depois, um convite para integrar a equipe.

Os Belfast Trojans disputam a Liga Irlandesa de Futebol Americano, composta por oito times espalhados por cidades como Dublin, Cork, Galway e Belfast. Apesar de estar longe do nível da NFL, a liga é marcada por união e forte senso de comunidade.
Aos 35 anos, Russell encarou o desafio de jogar a temporada completa, mesmo com limitações físicas. Mas foi ao assumir o papel de treinador que ele percebeu que seu verdadeiro chamado ia além das quatro linhas.
“Senti o Senhor me chamando. Percebi que estávamos moldando corpos, mas não almas”, relatou ao IMB.
Do campo ao cuidado das almas
Como treinador, Russell passou a conviver mais de perto com os atletas e descobriu realidades marcadas por ansiedade, conflitos familiares e dores emocionais profundas. Com o tempo, ele se tornou capelão do time, oferecendo aconselhamento, escuta ativa e apoio espiritual.
“Eu apenas tento estar presente, ouvir e deixar o Espírito Santo agir da maneira que Ele escolher”, afirmou.
Evangelho em um contexto de dor
De acordo com o IMB, a Irlanda do Norte registra uma das maiores taxas de suicídio do Reino Unido. Décadas de conflitos armados e instabilidade social deixaram marcas profundas, que ainda hoje afetam famílias inteiras e revelam uma grande demanda por apoio em saúde mental.
Além do trabalho com o time, Russell e Tori — que possui experiência na área de saúde mental — atuam como voluntários em um centro comunitário de apoio emocional em Belfast. Lá, eles oferecem acompanhamento e atividades como arteterapia, criando um ambiente seguro para conversas profundas.

Durante as sessões, o casal introduz reflexões bíblicas de forma sensível. Em uma atividade de pintura sobre uma tempestade, Russell compartilhou a história de Jesus acalmando o mar, incentivando os participantes a confiarem em Deus em meio às dificuldades.
Em outra ocasião, ao pintar uma floresta com um riacho, Russell relacionou a imagem ao Salmo 23.
“Conversei com eles sobre como Davi estava passando por um momento difícil, e foi o Senhor quem o consolou. Foi Ele quem o conduziu a águas tranquilas. Eu disse: ‘Esse é o mesmo Senhor que os ama e deseja ter um relacionamento com vocês’”, contou.
Uma xícara de café como ponte de esperança
O próximo passo do casal é a criação de uma cafeteria móvel, chamada Shepherd’s Cuppa. A ideia é simples e estratégica: visitar comunidades, oferecer café, boas conversas e abrir espaço para estudos bíblicos e grupos de apoio emocional.
“Ela serve para mais do que fornecer café. É uma porta de entrada para apoiar pessoas traumatizadas e um convite para o estudo bíblico que conduzimos”, explicou Tori.
Russell resume a missão com clareza e sensibilidade:
“É uma maneira prática de alcançar pessoas que talvez nunca entrem em uma igreja ou em um centro de aconselhamento. Às vezes, uma simples xícara de café se torna a ponte para uma conversa sobre esperança”.
No campo, na arte ou ao redor de uma mesa, o Evangelho segue encontrando caminhos — mesmo onde poucos imaginariam.
