No último dia 7 de janeiro, a população do Rio de Janeiro foi surpreendida com uma notícia muito especial: depois de 200 anos, a principal floresta da cidade voltou a receber as araras-canindés (Ara Ararauna), também conhecidas como arara-azul-amarela. As aves, Fátima, Fernanda e Sueli, três fêmeas, fazem parte de um projeto de reintrodução da espécie no Parque Nacional da Tijuca, conduzido pela ONG Refauna, com apoio do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

E esse presente para a natureza só foi possível graças ao trabalho realizado pelo Refúgio das Aves, do Parque Três Pescadores, um centro de acolhimento e reabilitação de animais silvestres, que integra o complexo de visitação do Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo. Durante um ano, o local foi o lar das aves, que foram resgatadas por órgão ambientais, em operações contra o tráfico de animais ou em cativeiros ilegais.

“Essa soltura só foi possível graças ao trabalho de monitoramento e reabilitação realizado no Refúgio das Aves, que busca promover a conservação da biodiversidade, preservando e evitando a extinção destas espécies tão importantes para a natureza. Com isso conseguimos manter populações de reserva, viáveis e com capacidade de serem enviadas de volta para seus hábitats”, destacou Rafael Moreira, biólogo do Parque Três Pescadores.

Agora, as aves irão viver livres e cumprir um papel fundamental: ajudar na restauração ecológica da Mata Atlântica do Rio de Janeiro. Além, do Refauna e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a soltura contou ainda com o apoio do Parque Paineiras Corcovado. O envolvimento de todos esses atores representa um trabalho em conjunto que focou, nos últimos sete meses, na aclimatação e na adaptação como processos fundamentais para viabilizar esta reintrodução.

Desde junho, quando chegaram no Parque Nacional da Tijuca trazidas do Parque Três Pescadores (Aparecida, SP), elas permaneceram em um recinto apropriado, reconhecendo o ambiente que foi a casa de seus ancestrais. Nesse período, passaram por um treinamento gradual, porém intenso, para desenvolver musculatura e aprimorar as habilidades de voo. Aprenderam a evitar a presença humana e iniciaram uma transição alimentar para reconhecer os frutos nativos da floresta onde vão viver. Também foram monitoradas a interação social e as condições físicas de cada animal.

Lara Renzeti, bióloga do Refauna e Coordenadora de Reintrodução das Araras, explica como o projeto começou, os desafios enfrentados e as expectativas. “O planejamento para trazer de volta as araras ao Rio começou em 2018, com destaque para a questão sanitária, que é desafiadora nesta espécie. O período de aclimatação exigiu uma dedicação enorme da equipe. Desejamos que as araras se adaptem bem à vida livre e que os moradores e visitantes do Rio de Janeiro tenham, no futuro próximo, a oportunidade de avistar essas aves maravilhosas colorindo o céu da cidade. A reintrodução das araras agora precisa da colaboração dos cariocas, cuidando e valorizando os animais livres como eles devem ser.”

Para Viviane Lasmar, analista ambiental do Instituto Chico Mendes e Chefe do Parque Nacional da Tijuca, essa iniciativa é uma vitória para o Rio e um exemplo para o mundo. “Esse momento é esperado não há sete meses, mas há mais de 200 anos. As araras-canindés do Parque Nacional da Tijuca agora são as araras do Rio, dos cariocas e de todos os brasileiros. Elas também são um exemplo para o mundo do que é possível realizar dentro de Unidades de Conservação. Daqui pra frente, em conjunto, seremos todos responsáveis pela sobrevivência desses animais em vida livre e, nós do ICMBio, acreditamos que a Ciência Cidadã é a grande aliada neste processo de monitoramento constante”, explica Viviane.

Desde o início, a chegada e a soltura desses animais são resultado de um trabalho coordenado que envolveu exames sanitários constantes, seleção comportamental e extremo cuidado com o bem-estar de cada indivíduo. É por causa do foco na saúde desses animais que uma quarta arara, batizada de Selton, que chegou no Parque em 2025 junto com as demais e passou por esse ritual, ainda vai aguardar mais um pouco para voar em liberdade. Ele está passando por uma troca de penas e, enquanto esse ciclo não se completa,

Monitoramento com a Ciência Cidadã

As araras foram liberadas com anilhas, microchips e colares de identificação e serão monitoradas pela equipe do Refauna. Essa estratégia já foi testada e usada em outros projetos de monitoramento, como o do Instituto Arara-Azul. O monitoramento em vida livre se dará também a partir dos relatos e informações enviadas pela sociedade. A participação ativa de pessoas coletando e disponibilizando dados é conhecida como Ciência Cidadã, e pode ser exercida por qualquer um que tenha interesse em contribuir. Isso pode ser feito por meio do envio de informações para o Instagram do Refauna ou para o WhatsApp  (21 96974-4752) que visa facilitar o contato direto com moradores do entorno do parque.

Outro instrumento para o monitoramento participativo é o SISS-Geo, um aplicativo gratuito de registro da fauna silvestre, desenvolvido pela Fiocruz. Nele, é possível enviar fotos e informações quando uma das araras for avistada, mesmo sem sinal de internet: o aplicativo armazena a imagem e a coordenada GPS e envia o dado automaticamente assim que a conexão for restabelecida. No caso das araras, essa abordagem cidadã é amplificada por permitir uma cobertura geográfica que nenhuma equipe de pesquisadores conseguiria sozinha e por garantir um fluxo contínuo de dados, possibilitando que gestores de parques e biólogos tomem decisões baseadas no que está acontecendo no momento.

Além disso, os pesquisadores do Refauna já começaram a interlocução com observadores de aves no Rio e estudam realizar cursos de formação com guias que atuam dentro do Parque Nacional da Tijuca, como forma de promover a educação ambiental.

É importante reforçar que, caso a equipe de pesquisadores do Refauna identifique qualquer risco à saúde ou à adaptação das aves, está prevista a possibilidade de recaptura para manejo, tratamento ou ajustes no processo de reintrodução.

Uma aclimatação com muito treino e jabuticaba

Lara explica que, nesses sete meses de aclimatação, as rotinas do treinamento de voo foram do nível básico ao avançado, sempre evoluindo quando todas as araras correspondiam ao que era esperado em cada etapa. Além disso, a equipe observou que as aves interagiram com árvores presentes no recinto de aclimatação e com outros animais nativos.

“Presenciamos alguns quatis entrando no recinto e não houve nenhum risco para nenhuma das duas espécies. O mesmo com um esquilo caxinguelê, que chegou a visitar o local de alimentação. Os macacos-pregos até passaram perto, mas não houve nenhum problema, embora as canindés tenham ficado mais alertas com a presença deles – algo que é normal e esperado por parte delas”, detalha Renzeti.

Apesar de terem sido flagradas comendo até troncos de árvores, o período de aclimatação foi marcado por uma preferência: as jabuticabas. Fruto nativo da Mata Atlântica e encontrado no Parque, introduzido gradualmente na dieta, tornou-se o queridinho das araras. No entanto, Lara ressalta que elas precisarão se adaptar ainda mais.

“Elas terão que aprender a encontrar alimento, já que alguns frutos são sazonais, como a jabuticaba, que não está disponível nesta época do ano. Então, para ajudá-las nessa fase inicial, manteremos uma plataforma de alimentação, composta por ração e frutos comerciais, como banana, manga, goiaba, uva, laranja e coco, enquanto monitoramos. Isso será feito até que encontrem outras opções na floresta, como a macaúba, que elas experimentaram, gostaram e vão ter de buscar sozinhas”, explica Lara.

O futuro das araras no Rio de Janeiro

Fernanda, Fátima e Sueli são pioneiras, mas não serão as únicas. Selton deverá receber, ainda em 2026, a companhia de mais dois ou três casais da mesma espécie. Atualmente, esses animais estão passando por exames sanitários e pela aprovação de toda a documentação necessária, etapas que vêm evoluindo positivamente, de acordo com o Refauna.

A expectativa é que a reintrodução dessa segunda leva de araras possibilite também a reprodução, o que vai permitir a consolidação do retorno dessas aves aos céus de onde nunca deviam ter deixado de voar. A iniciativa prevê uma ampliação gradual do projeto, com a meta de alcançar a reintrodução de 50 araras-canindés ao longo de cinco anos.

Parque Três Pescadores

As quatro araras-canindé enviadas para o Rio de Janeiro são os primeiros animais reintroduzidos na natureza, oriundos do Refúgio das Aves, do Parque Três Pescadores, de Aparecida. Agora outras seis araras-canindé, três fêmeas e três machos também estão sendo preparadas para serem devolvidas ao meio ambiente.

Atualmente elas passam por um processo de documentação e avaliação comportamental e fisiológica, para confirmar se possuem as condições necessárias para serem soltas no meio ambiente. A expectativa é que essa liberação ocorra até o final do primeiro semestre de 2026, quando também ocorrerá a escolha do local para a soltura dos animais.

Atualmente o Refúgio abriga mais de 130 animais, de 33 espécies diferentes, oriundos de apreensões do tráfico, maus tratos ou entregas voluntárias. Muitos chegam debilitados, feridos e com a saúde frágil. O espaço é dedicado à recuperação e proteção de espécies brasileiras e recebe animais de Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), e de excedentes de zoológicos de todo o país.

Ao chegarem no local, eles passam por triagem, são avaliados, recebem tratamento veterinário e ficam em quarentena, para depois serem manejados para área de convívio e visitação. Após esse período de tratamento, aclimatação, avaliação comportamental, os animais triados e treinados para serem reintroduzidos na natureza, em programas de refaunação ou reforço populacional.

Entre as espécies acolhidas no Refúgio, temos iguanas, jabutis, marreco, araras, papagaios, maritacas, periquitos, pombas, corujas, garças, tucanos, siriemas, cágados, socó-boi, curicaca, savacu, ouriços e cutias.

Além do acolhimento dos animais, o Parque também promove a sensibilização ambiental através de programas educativos, e oferece áreas acadêmicas para pesquisa, estágios e programas de extensão em colaboração com universidades da região. “Isso fortalece a ligação entre conservação prática e conhecimento científico, criando um ambiente de aprendizado contínuo para estudantes e pesquisadores”, destacou Rafael Moreira.

O longo caminho da Refaunação da Mata Atlântica no Rio de Janeiro

As aves liberadas agora vieram do Parque Três Pescadores, em Aparecida (SP), que abriga o Refúgio das Aves, um centro de acolhimento e reabilitação de animais silvestres, e que não apresentam comportamento de domesticação.

O Refauna é uma OSC que trabalha com a reintrodução de espécies de fauna para promover a restauração ecológica. Desde 2010, já reintroduziu espécies como a cutia-vermelha, o jabuti-tinga e o bugio-ruivo, no Parque Nacional da Tijuca; e a anta, no Mosaico Central Fluminense — na Reserva Ecológica de Guapiaçu e no Parque Estadual dos Três Picos (RJ). A reintrodução da arara-canindé se alinha à missão de restaurar não só a biodiversidade, mas também as interações ecológicas, o equilíbrio funcional dos ecossistemas e a reconexão das pessoas com a natureza.

Essa iniciativa responde a um desafio global da conservação: o combate à defaunação, caracterizada pela perda de espécies animais. Segundo estudos, cerca de 90% das espécies de plantas da Mata Atlântica dependem de animais para dispersar suas sementes. Quando uma floresta perde sua fauna, ela também perde, aos poucos, a capacidade de se regenerar. A ausência de dispersores compromete a manutenção das florestas e o funcionamento do ecossistema, mesmo em áreas protegidas.

O cenário é especialmente preocupante na Mata Atlântica. Segundo dados do IBGE (2023), 43% da fauna ameaçada de extinção no Brasil é exclusiva desse bioma, que concentra o maior número de espécies ameaçadas do país. Quando uma espécie é extinta, não é só ela que desaparece; todo um ciclo de vida se desfaz.

O resultado esperado é a consolidação de um modelo de refaunação, capaz de inspirar políticas públicas, orientar novos projetos de conservação e restaurar processos ecológicos fundamentais.

Com registros históricos que remontam ao século XVI, a presença das araras no Rio de Janeiro está profundamente ligada à paisagem original da Mata Atlântica. O sobrevoo dessas aves no céu carioca só é possível graças à união de muitos parceiros, como a Arca do Noah, National Geographic Society, Ecomimesis, Hartwig Stiftung, CRAS – UNESA, PucRio, UFRJ, UFRRJ, Log Nature, Parque Nacional da Tijuca, INEA-RJ, Jeferson Pires (médico veterinário e biólogo do CRAS da Estácio), Parque Três Pescadores, Grupo Cataratas, por meio do Instituto Conhecer para Conservar e Paineiras-Corcovado, ICMBio-CEMAVE, ETamussino, Megazoo, Tatiana Tamussino Ferreira e Stefan Tamussino, Guilherme Marieto – DOCBird, IdeaWild, Instituto Luisa Pinho Sartori, Rocha Moura Engenharia LTDA., Instituto Fauna Brasil, Neiva Guedes e Gerson Norberto.